A HISTÓRIA DO HÓQUEI EM PATINS NO BRASIL
Por Marcelo Albuquerque (atualizado do texto original de junho de 1999)

O Hóquei sobre Patins teve suas origens no início do século XX, na Inglaterra. É uma variação clara de outras versões do Hóquei, mas associou à ele, o estilo Europeu do esporte arte. Caracteriza-se pela condução de um objeto esférico com um bastão curvado na ponta, cujo objetivo é fazer gols.

As origens mais distantes do Hóquei datam de 510 a.C. Gravuras funerárias gregas mostram praticantes de sphairomachia, um jogo semelhante ao Hóquei na Grama. A primeira aparição da palavra "Hóquei", segundo alguns historiadores, aconteceu em 1527, derivada da palavra "hocquet", um jogo francês da idade média, que usava bastões para empurrar objetos. A palavra significa algo como "bastão de orientação".


O jogo sphairomachia é retratatado em uma gravura grega, datada de 510a.C.
Gravura pertencente ao museu Nacional de Atenas.


É bem verdade que alguns historiadores incluem a criação da roda (4000 a.C.) e o desenvolvimento dos esquis (1100 d.C.) na origem do esporte, mas seremos mais realistas, reduzindo o campo histórico a um nível razoável.

Incluiremos então a origem do patins de rodas, criado pelo holandês Hans Brinker1 em 1700, baseado nos patins de gelo, existentes desde 1572. Tal patins tinha apenas duas rodas e exigiam habilidades acrobáticas para seus usuários. Em 1760 o músico inventor Joseph Merlin criou uma segunda geração de patins, em Londres, que passou a ser constantemente atualizada nos anos seguintes.


Os patins de Merlin.

Mas o responsável pela popularização deles foi James Plimpton, que desenvolveu um novo tipo de patins, em 1863. Os patins Plimpton, tinham dois eixos paralelos com um par de rodas cada, e eram capazes de executar movimentos circulares com sua arquitetura. Depois de vendidos por todo Estados Unidos e Europa, os patins incentivaram seu criador a inaugurar o primeiro rinque público do planeta.


Os patins Plimpton, de 1863, foram os responsáveis pela popularização dos patins nos Estados Unidos.
O modelo foi modernizado, mas sua essência permanece a mesma até os dias de hoje.


Juntamente com o empolgante desenvolvimento dos patins de rodas, surgiam oficialmente as primeiras variações do Hóquei. A primeira liga de Hóquei no Gelo foi criada em 1855, no Canadá, e a de Hóquei na Grama apareceu em 1875, na Inglaterra. De uma "mistura" dos dois esportes, nascia o Rink Hockey, em 1885, data de sua primeira manifestação, no rinque Denmark Hill, em Londres. Praticado com bolas de cricket e estiques variados, difundiu-se por toda Europa e foi regulamentado na Inglaterra, em 1905, com o aparecimento da primeira Associação. No ano seguinte, foi disputado o primeiro campeonato oficial da história, no mesmo país.


O primeiro jogo de Hóquei em Patins foi disputado no Lava Rink, em Londres.
O nome era uma referência à sua pavimentação, com uma camada de lava do Vesúvio.
Em 1914, foi convertido em um depósito militar e o edifício foi destruído por um incêndio por volta de 1920.


O primeiro encontro Internacional de clubes que se tem notícia, aconteceu em novembro de 1910. A equipe Belga do Royal Rink Hockey Club foi à Paris, onde enfrentou e derrotou o Centaur Roller Club (3-0 e 3-1) e o Metropolitan Club (2-0).

A esta época, os filhos dos barões do café que estudavam na Europa, retornavam ao Brasil trazendo a novidade esportiva. Dentre eles, as famílias Rodovalho, Lara Campos, Simonsen e Porchat. Já haviam vários rinques de patinação em São Paulo. Foi então que o proprietário do Rink Colúmbia, o Inglês radicado no Brasil, Sr.Harris, começou a promover animadas partidas de Hóquei para entreter seus clientes. Conhecido como o "Pai do Hóquei", premiava os vencedores com "gasosas" (refrigerantes) ou doces.
Anos mais tarde, começavam a surgir os primeiros clubes em São Paulo, como o Skating Palace. Foi criada a Liga Paulista de Hóquei e com ela o primeiro Campeonato, vencido, em 1913, pelo Skating Hockey Clube. Na época, o Hóquei era jogado com estique de Hóquei na grama e bola de pólo a cavalo.


Um dos grandes projetos da engenharia da época, o Skating Palace foi construído na praça da República e perdurou por anos, quando foi convertido em um cinema (Cine República). O prédio foi demolido nos anos 70, para a construção do metrô república.
A presença dos rinks de patinação foi regular na cidade de São Paulo, ao longo da primeira metade do século XX. Vicente de Paula Araújo, em seu clássico "Salões, circos e cinemas de São Paulo" (1981), traz referências contínuas a ocorrências de espaços dedicados à prática da patinação recreativa. Em 1904, por exemplo, é inaugurado, em outubro, na Rua do Gasômetro nº 114, o Rink Cosmópolis; quase dois meses após, em 30 de dezembro, é aberto o São Paulo Star Skating Rink, à Rua Onze de Junho nº 3. Ao mesmo tempo, o Teatro Popular seria transformado em rinque.
No ano seguinte, em 1905, Araújo registra o Art Nouveau Rink, sem local definido, sob direção de Chaby e Rochinha: “Aí se realizavam competições de raprazes e senhoritas, coridas com camisolas e de maças. A agilidade de suas sportwomen era apreciada, principalmente a demi-mondaine Alzira, uma das melhores corridistas do salão.” (ARAÚJO, 1981, p.282). No mesmo ano, encontra-se em atividade o Columbia Skating Rink, com jogos de futebol sobre patins. Ainda em 1905, em 23 de abril, foi inaugurado o Rink Antartica, com salão ao ar livre, na Água Branca.
O Skating Palace, também conhecido como Skating Rink, teve seu projeto inical apresentado à prefeitura em julho de 1911 por José Rossi, arquiteto construtor. O edifício ocupou um terreno de 2.170 metros quadrados. Com duas frentes, uma para a praça e outra para a Rua Aurora, o projeto, desenvolvido para a Companhia Sports e Atrações15, recebe o alvará nº 2.254.


Em 1915, a Seleção da Argentina veio ao Brasil para enfrentar três equipes paulistas, nos primeiros jogos Internacionais destes países: venceu o Skating Hockey Clube por 2-1, o Red Ankor por 1-0 e empatou com o White H.C. em 2-2. Os brasileiros reclamaram muito das concessões feitas ao goleiro Argentino, que jogava abaixado, o que não era permitido na época.

Neste mesmo ano, surgia no Rio de Janeiro a primeira equipe carioca de Hóquei: o Leme H.C.. Eles fizeram história ao vencer as equipes Norte Americanas dos navios de guerra "Pittsburg" e "Frederic", e os vice-campeões paulistas por 3-1 e 8-3, nos primeiros jogos interestaduais do país. O fim do Leme H.C. em 1919, fez nascer o C.R.Flamengo, que venceu o selecionado Paulista por 5-1.

Enquanto o Hóquei nacional iniciava um período de declínio, depois da criação da Confederação Paulista de Hockey, em 1917, o Europeu mostrava grandes sinais de vitalidade. Em 21 de abril de 1921, em Montreux, na Suíça, era criada a Féderation Internationale de Patinage a Roulettes, em iniciativa dos Ingleses Jesset, Kaenells e Wallis; do alemão Max Walker; dos franceses Steinfinckler e Salomon; e dos Suíços Ablas, Albert Mayer, Otto Mayer, Fred Renkewitz e Werner Zeltner. Com o objetivo de organizar o Hóquei mundial, a FIPR, teve como primeiro presidente o suíço Fred Renkwitz, auxiliado pelo secretário geral Otto Mayer. Estavam filiadas Alemanha, Inglaterra, França e Suíça. No anos seguinte juntaram-se Bélgica e Itália. Portugal só entraria em 1930 e o Egito, aceito anos depois, foi o primeiro filiado não europeu.

As primeiras equipes disputaram então o 1° Campeonato Europeu, em Herne Bay, Inglaterra, em 10 de abril de 1926. Até 1932, o Europeu foi um evento anual realizado alternadamente em Montreux e Herne Bay. O Campeonato de 1936, em Stuttgart, foi também considerado o I Campeonato Mundial, onde foram aprovados os primeiros estatutos da FIPR. O Europeu/Mundial de 1939 foi o último antes da II Guerra Mundial. Só em 1947, o Europeu/Mundial voltou a ser disputado. Em 1956, finalmente Europeu e Mundial se tornaram eventos independentes.

Em 1928, no Brasil, o Major Miguel Morinaro criava novamente a Liga Paulista de Hóquei, com sede no Rink Colúmbia, e presidida por ele. A entidade chegou a abrigar 40 rinques e 25 times. Mas foi a febre do mini-golf vinda dos Estados Unidos, em 1931, que reativou a paixão de paulistas e cariocas. O Cine República foi desativado e reconstruído novamente o Skating Hockey Clube, que retomou seu reinado.

Surgiu então a Associação Paulista, que não aceitava os vínculos da Liga com a Apea e o Futebol. Mas a empreitada não deu resultado e durou apenas 48 horas. Nascia também o semanário informativo "Patinando" e as primeiras regras, provisórias, já que não se conseguiam cópias das regras internacionais oficiais.

Tendo em vista o renascimento do Hóquei Paulista, o Leme H.C., do Rio de Janeiro, recriou sua equipe e organizou bem sucedidos amistosos com os paulistas. Ainda empolgados com o esporte, surgiram as primeiras equipes de Hóquei Feminino em São Paulo, como o Perereca H.C. e o Guarani Hóquei Clube.


Algumas das equipes femininas que surgiram na década de 30: o Perereca Hóquei Clube (esquerda) e o Guarani Hóquei Clube (direita).

Porém, o entusiasmo sofreu um duro golpe. Em 1932, a revolução Paulista, que tinha o objetivo de constitucionalizar o Brasil, levou a maioria dos atletas à luta armada e à morte. Por isso, o hóquei desapareceu por anos.

Em 1936, incentivados pelos entusiastas Raul Lara Campos, Antoninho Rodovalho, Alberto Uszbal e Superchi, o Hóquei finalmente reapareceu em São Paulo, instalado no Rinque Frontão Boa Vista. Os mesmos criaram, em 22 de maio de 1948, a Federação Paulista de Hóquei e Patinação. Chefiada inicialmente por Olímpio Silva e Sá, jornalista da "A GAZETA", a FPHP elegeu como primeiro presidente Ubirajara Martins.


O jornal Estado de São Paulo de 23 de novembro de 1948, noticia a fundação da Federação Paulista de Hóquei e Patinação.

Em 1949 era disputado o primeiro Campeonato Paulista, e em 1951, a FPHP reduziu o número de jogadores na pista de 7 (um goleiro, 2 beques e 4 atacantes) para os atuais 5 (um goleiro, 2 beques e 2 atacantes).

Em 28 de abril de 1940, o Comitê Olímpico Internacional (COI), reconheceu oficialmente a FIPR, confirmando sua decisão em 1971. Apesar disto, o Hóquei só entraria no programa Olímpico em 1992, na Olimpíada de Barcelona.

Em 2 de julho de 1952, a FIPR mudou definitivamente seu nome para Federation International de Roller Skating (FIRS) e criou o Comitê Internacional de Rink Hóquei (CIRH), órgão responsável pelo gerenciamento do esporte. Tais acontecimentos motivaram a filiação de mais de uma dezena de países, entre eles Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia, Venezuela, Cuba, Austrália, Nova Zelândia e Japão.


Em junho de 1952, no Pavilhão de Desportos de Lisboa, meninas do Hockey Clube de Portugal e da Acadêmica Amadora se enfrentaram em jogo festivo. Depois da partida, vencida pela Amadora por 2a0, as duas equipes desapareceram.

Filiado, o Brasil então se inscreveu para participar, pela primeira vez, de um Campeonato Mundial. Para ir à Genebra, na Suíça, 1953, foi convocada a primeira Seleção nacional: Nilson Costa, Brenha, Raul Lara Campos, Caio, Moura, Antoninho Rodovalho e Crissiúma. A viagem, que classificou o Brasil na 10ª posição, foi paga por Raul Lara Campos, já que o Governador de São Paulo, L.N.Gorcer, desistiu de finaciá-la no último instante.

Como na Argentina o Hóquei era jogado com gol de futebol de Salão e no Chile a "bola" era o disco de Hóquei no Gelo, era impossível um Intercâmbio Internacional com diferenças tão grandes. Visando essa unificação de regras, o Comendador Brasileiro Hiada Torlay e o Uruguaio Nobel Valentini se reuniram no Hotel Lord, em São Paulo, 1954, para fundar a Confederación Sudamericana de Patín. Em Outubro, organizaram o I Sul-Americano de Hóquei, no Pacaembú, em São Paulo, vencido pelo Chile.

Enquanto isso, no Recife, José Ferreira Relvas, jogador do Parede H.C., de Lisboa, insistia ao presidente do Clube Português do Recife, Elisio Gomes, para introduzir o Hóquei nas fileiras do Clube. Nos meses que se seguiram, a proposta foi aceita e nascia o Hóquei Pernambucano, em 1954. A primeira quadra de Hóquei no Nordeste foi então construída no Clube Português do Recife (CPR), que cedia alguns atletas para clubes como o Barroso e o Atlético, interessado na criação de um Campeonato.

Em 1956, o Brasil recebeu a visita da equipe Portuguesa do Paços D'arco, Campeã nacional de 1955. Em São Paulo, derrotou a Sociedade Esportiva Palmeiras, por 8-0 (28/fev/1956), e o Clube Internacional de Regatas, em Santos, por 11-2 (1/março/1956). A equipe Lusa foi então ao Recife. Lá, os três Clubes montaram uma seleção que disputava o primeiro jogo de Hóquei no Nordeste. Vitória dos Europeus, por 23-0.

Somente no ano seguinte, o Hóquei Pernambucano enfrentou novo adversário. Em 7 de setembro de 1957, a equipe carioca do C.R.Flamengo chegou ao Recife, onde realizou 4 jogos. Empatou com o Clube Portugês do Recife (2-2) e perdeu para o Barroso (9-1); Venceu o mesmo Clube Portugês do Recife (5-3) e a seleção dos dois times por 3-2.

Em 1959, foi realizado o I Campeonato Pernambucano, vencido pelo Clube Português do Recife. Daí, saiu a seleção Pernambucana que, junto ás seleções de São Paulo e Rio de Janeiro, disputaram o I Campeonato Brasileiro, vencido pelos Paulistas, em casa.

No ano seguinte, depois da criação da equipe do Sport Clube do Recife, na quadra do Colégio Marista (1959), e da excursão da Associação Portuguesa de Desportos ao Recife, nascia a Federação Pernambucana de Patinação, que teve como primeiro presidente Jandir Ferreira dos Santos. Nesta época, o CPR tentava introduzir o Hóquei Feminino, que sumcumbiu aos machismos da época.


Com um Hóquei "estável", o Brasil sediou o XVII Campeonato Mundial, em 1966. Realizado em São Paulo, no Ibirapuera, o evento reuniu 10 seleções, e amargamos o último lugar.

Em 1977, buscando uma maior integração do Hóquei Mundial, foi fundada a Confederação Européia e a Confederação Panamericana de Patinagem, com sede em Lincoln, Nebraska. Em 1982, o Comitê Internacional de Rink Hóquei resolveu dividir o Mundial em duas divisões: A e B.

Na década de 80, o Hóquei brasileiro passaria por muitas transformações. A primeira delas, com a criação do Sertãozinho Hóquei Clube, em 1980. Idealizado pelo jogador Haroldo Pérsio Requena e concretizada pelo prefeito de Sertãozinho (350Km de São Paulo), Waldir Alceu Trigo. Buscando jogadores de outros times, o Sertãozinho tornou-se a primeira equipe profissional do país, decretando o fim da era do amadorismo, elevando o nível do hóquei nacional e coroando a cidade com o título de "Capital Brasileira do Hóquei".


A criação do Sertãozinho, em 1980, revolucionou o esporte patinado. O profissionalismo da equipe interiorana, "matou" o hóquei amador, e foi responsável por uma "explosão" no qualidade de jogo.

Sertãozinho foi também responsável pela popularização e elitização do esporte. Depois de conquistar por 3 vezes o título de Campeão Sul-americano, e inúmeras vezes os títulos regionais e nacionais, a cidade sediou então o XXVII Campeonato Mundial, no qual o Brasil ficou em 5º lugar. No Mundial seguinte, em 1988 (La Corunha), o Brasil terminou rebaixado para a 2ª divisão do Hóquei mundial (Poule B).

Para recuperar o prestígio do Hóquei Brasileiro, os dirigentes máximos da modalidade desligaram o Hóquei e a Patinação da Confederação Brasileira de Desportos Terrestres (CBDT), em 8 de dezembro de 1988, para fundar a Associação Brasileira de Patinagem (atual Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação), especializada nos esportes sobre patins.

Em 1990, o Brasil foi Campeão Sul-americano e, ao vencer o Campeonato Mundial B, em Macau, China, retornou a elite esportiva, de onde nunca mais saiu. Nos Mundiais de 1991, em Portugal, em 1995, em Recife, e em 2009, na Espanha, o Brasil conseguiu sua melhor classificação da história: 4° lugar.


A seleção do Brasil foi Campeão Mundial B, e garantiu o acesso à elite do Campeonato.

Em 1992, durante a Olimpíada de Barcelona, o Hóquei atingiu seu auge. Disputado como esporte de demonstração, reuniu 12 países, e coroou a Argentina como medalha de ouro. O Brasil foi 5°.


Foi então que o Comitê Olímpico Internacional orientou seus filiados que, para manter o status de esporte Olímpico, as modalidades deveriam ser praticadas por homens e mulheres. Assim, em 1992, era disputado o primeiro Europeu e o primeiro mundial de Hóquei Feminino.

No Brasil, a primeira equipe a ser fundada, foi a Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB), em novembro de 1991, através de seu treinador Carlos Costa. Depois, veio a Sociedade Esportiva Palmeiras (SEP), no ano seguinte. Mas a data que deve ser considerada como a oficial do nascimento do Hóquei feminino do Brasil é 25 de abril de 1992, dia do primeiro confronto. Nele, o Palmeiras venceu a AABB por 1a 0, gol da atacante Patrícia Perini.


A Associação Atlética do banco do Brasil foi a primeira equipe de Hóquei Feminino do Brasil.

Quando apareceu o Clube Internacional de Regatas (CIR), foi realizado o primeiro campeonato feminino do Brasil: a Taça Cidade de São Paulo, em 26 de setembro de 1992, no qual o Palmeiras foi campeão. O primeiro paulista, vencido pelo Palmeiras, aconteceu em 1993, uma ano antes do primeiro Brasileiro, vencido pela AABB, em 1994.

Incentivados pelas excursões do Palmeiras, financiadas pelo pernambucano radicado em São Paulo, Antonio Martins de Albuquerque, o Recife se tornou o segundo maior pólo de Hóquei feminino do país. Desta forma, em 14 de julho de 1993, acontecia o primeiro jogo interestadual: a recém formada equipe do Clube Português do Recife foi derrotada pelo Palmeiras por 7-0. No ano seguinte surgiram a Associação dos Amigos do Minho e o Sport Club do Recife, que participaram do primeiro campeonato Interestadual, o Torneio dos 60 anos do Clube Português, vencido pelo Palmeiras.

Em junho de 1994, a excursão do Palmeiras à cidade de Sertãozinho antecipou a formação da equipe interiorana. Da mesma maneira, as equipes de Recife fizeram nascer o Hóquei feminino do Ceará. No Rio de Janeiro, as equipes de Teresópolis e do Sesi-Rio surgiram naturalmente.

Em 1994, o Brasil já disputava seus primeiros torneios Internacionais. Em março, o ginásio da Associação Portuguesa de Desportos sediou a I Copa Intercontinental, vencidas pelas Alemãs do Calemberg Eldagsen. Em julho, a AABB, foi à Portugal, de onde trouxe um vice-campeonato. Em outubro, o Brasil participou pela primeira vez de um Campeonato Mundial, em Portugal. As atletas Fernanda Gonçalves, Tatiana Veggi, Luciana de Martino, Daniela Barbosa, Cristiane Okada, Paula Sakuma, Patrícia Albuquerque, Patrícia Perini, Amanda Bayer e Marina Orfali, comandadas pelo Técnico Caetano Boncristiane se classificaram em 11° lugar (19 participantes), com uma ótima campanha. A atacante Patrícia Albuquerque foi a artilheira do Campeonato, título inédito para o Hóquei do Brasil.


A primeira seleção de Hóquei Feminino do Brasil terminou em 11° lugar, com uma boa Campanha.
A atacante Patrícia Martins foi a artilheira da competição, e recebeu um bonito troféu.


Nesta época, a Federação Paulista de Hóquei e Patinação agregou no seu quadro de competição também o Hóquei In-line, uma variante de verão do violento Hóquei no Gelo. Para facilitar o aparecimento dessas equipes, foi criado uma categoria especial chamada de "filiados experimentais", permitindo a adesão de clubes, associações e "grupos" sem estrutura jurídica definida.

Com isso, o número de atletas ministrados pela FPHP cresceu bastante, trazendo junto intempéries e um choque de novas idéias. Coincidentemente, a FPHP foi beneficiada pela criação da lei dos bingos, que trouxe um volume considerável de dinheiro para o caixa da entidade.

Entretanto, como aconteceu com todos os esportes que se aproveitaram da lei, a FPHP começou a se tornar um complexo emaranhado de briga de egos e corrupção, cujos efeitos seriam sentidos adiante.

Dentro da pista, assim como fez Sertãozinho na década de 80, a Associação Portuguesa de Desportos, através do Projeto Arco-Íris, idealizado por Antonio Martins de Albuquerque e Paulo Sakuma, montou a primeira equipe profissional de Hóquei Feminino, em 1996. Como potência esportiva, a Portuguesa encarnou o que teve de mais vitorioso no hóquei em Patins.

O esquadrão rubro-verde formado pelo quinteto Patricia Albuquerque, Paula Sakuma, Érica Silva, Silvana Namie e Patricia Perini foi talvez a equipe mais vitoriosa da história do hóquei em patins: em 98 jogos, apenas 2 derrotas e 1 empate. A equipe venceu 8 Campeonatos Paulistas, 8 Campeonatos Brasileiros, 1 Campeonato Sulamericano e 2 Campeonatos Mundiais de Clubes, todos de forma consecutiva e invicta.


O quadro original da Portuguesa, Multi-campeão: Patricia Perini, Carla Sakuma, Silvana Nishi, Patricia Albuquerque, Maria Tomazzini, Paula Sakuma e Érica Silva. A base para o sucesso.

E exatamente como ocorreu no masculino na década de 80, o aparecimento desta equipe profissional elevou o nível do hóquei feminino do Brasil ao auge.

No Campeonato Mundial de 1996, realizado em Sertãozinho, no Brasil, outra vez uma brasileira foi a melhor marcadora (Paula Sakuma) e, pela primeira e única vez, uma goleira brasileira recebeu o prêmio de menos batida: a pernambucana Daniela Barbosa foi merecidamente recompensada no mundial em que o Brasil esteve a dois segundos de conquistar a inédita medalha, ao ceder um impossível empate diante das italianas nas semi-finais.

Com o sucesso das jogadoras brasileiras, iniciou um processo de êxodo sem precedentes: os clubes estrangeiros começaram a apostar na contratação dos brasileiros. No início do ano 2000, quase todas as jogadoras da seleção jogavam em países como Portugal, Espanha e Itália.

Em 1997, foi criado em São Paulo o dia do Hóquei sobre Patins: 22 de maio.


Curiosamente com o sucesso pessoal dos principais atletas do Brasil, o hóquei começou um declínio sem precedentes: A FPHP sofreu um duro golpe dos seus filiados experimentais, em meio a uma onda de denúncias de corrupção e teve sua ruputura planeada, ficando apenas com os filiados que possuíam Hóquei In-line, sendo sumariamente excluídos os filiados fundadores do hóquei, da patinação e da corrida de patins.

A morte do incentivador Yader Torlay, filho do Comendador Hiada Torlay, foi outro grande golpe nas fileiras do hóquei: clubes tradicionais como o Palmeiras aboliram a modalidade do seu quadro de esportes amadores. Outros jogadores das equipes mais fracas do hóquei viram no Hóquei In-line a oportunidade de saírem do anonimato e se tornarem estrelas.

Aproveitando-se do desequilíbrio momentâneo do hóquei em Patins, os golpistas do Hóquei In-line apoiados por entidades financeiras mais abastadas, com visíveis interesses comerciais, conseguiram afastar o hóquei dos Jogos Pan-americanos e colocar em dúvida seu reconhecimento perante o COB.

Mas enquanto a política do Hóquei em Patins sofria diversos revés, nunca os atletas brasileiros estiveram tão em alta. Jovens promessas como Claudio Selva (Cacau), Bruno Matos e Leandro Wada (Chininha), chegavam cada vez mais cedo à Europa como alternativa econômica para reforçar os clubes.

No feminino, a experiência internacional trouxe maturidade à seleção. No Campeonato Mundial de 2002, em Portugal, a seleção comanda por Antonio Martins de Albuquerque e Marcelo Albuquerque, conseguiu o que parecia impossível: a medalha de vice-campeã mundial de seleções, numa campanha histórica.


A seleção feminina do Brasil que disputou o Campeonato Mundial de 2002, em Paços de Ferreira, Portugal, foi a primeira equipe brasileira a subir no podium de um Campeonato Mundial.

A atacante Patricia Albuquerque foi eleita a melhor jogadora do mundo por quase 10 anos e foi artilheira dos Campeonatos Mundiais de 1994, 1998, 2000, 2002, 2004 e 2006. A seleção feminina ainda repetiu o vice-campeonato Mundial em 2004, na Alemanha.


A seleção feminina do Brasil, novamente vice-campeã Mundial, em 2004, em Wullpertal, Alemanha.

E mais controverso ainda foi o alijamento das brasileiras do mundial de 2006. Vítimas de uma das maiores armações esportivas, as brasileiras saíram como únicas invictas do Campeonato do Mundo mas foram empurradas para a 9° posição, num vergonhoso e mentiroso escândalo de doping forjado pela Federação Portuguesa de Patinagem e pelo CIRH. LEIA MAIS AQUI.

Em virtude do escândalo do Chile, o hóquei feminino praticamente desapareceu do país. Nos anos seguintes, apenas uma equipe do Recife manteu suas atividades em todo o país.

No masculino não foi muito diferente. Sem uma estrutura política eficiente, as equipes de hóquei foram suspendendo seus quadros pouco a pouco. Os Campeonatos Nacionais eram disputados com pouquíssimas equipes.

Em São Paulo, Frank Jacques fundou a Federação Paulista de Esportes sobre Patins (FPESP), para abrigar a Corrida sobre Patins e o Hóquei sobre Patins.

Em 2012, após desentendimentos políticos, o diretor de Hóquei Guto Martins rompeu com a entidade e fundou a Federação Paulista de Hóquei sobre Patins (FPHSP), que atualmente gerencia o esporte paulista.


A última seleção do Brasil, que disputou o Campeonato Mundial de 2013, em Angola.
O brasileiro Cláudio Selva (Cacau) foi o artilheiro da competição.


Atualmente o Hóquei do Brasil passa por um processo de renovação e reestruturação que, esperamos, deve reerguer o nosso querido Hóquei sobre Patins.

BIBLIOGRAFIA:

LIVROS:
  • In-Line Roller Hockey - The Official Guide and Resource Book (NIHA) - Steve Joyner & Brett Hull - Contemporary Books - 1995
  • Hóquei - história, regras e fundamentos - Décio Vioto - Ed.Três
  • A História do Hóquei Feminino do Brasil - Marcelo Martins de Albuquerque - Maebee
  • Hockey - Thomaz Mazzoni - 1932

    DIÁRIOS:
  • Diário de Antonio Martins de Albuquerque
  • Diário de Raul Lara Campos
  • Diário de Marcelo Martins de Albuquerque
  • Diário de Victos Santos

    OUTROS:
  • Jornal "Patinando" da Liga Paulista de Hockey (1932)
  • Suplemento especial "Hóquei em Patins" do jornal A BOLA (14nov93)
  • Arquivo Histórico da Federação Paulista de Hóquei e Patinação
  • Arquivo Histórico da Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação
  • Reportagens da coleção do Comendador Hida Torlay
  • Regras de Hóquei - Comitê Internacional de Rink Hoquei
  • Recortes do Jornal A GAZETA ESPORTIVA
  • Recortes de diversos jornais e revistas
  • Site InfoRoller - Boris Tarassioux (http://www.scalaire.fr/inforoller/)
  • Theatres, Music Halls, and Cinemas in Camberwell, London (http://www.arthurlloyd.co.uk/Camberwell.htm)
  • Informativo Arquivo Histórico de São Paulo - (http://www.arquiamigos.org.br/info/info30)
  • 1- Parte da história do Holandês Hans Brinker é relatada em um livro e filme de nome "Hans Brinker; or, the Silver Skates: A Story of Life in Holland";